Moda como fuga da realidade

Li outro dia neste post da Carol Burgo, em seu Small Fashion Blog, que os únicos blogs que fazem real sucesso de público são os que mostram imagens glamourosas, roupas caríssimas, pratos de restaurantes estrelados, etc. Ou seja: blogs que mostram uma realidade que não é da maioria de nós.
Ela diz:
"[Esse blogs] nos encantam pelo simples fato de mostrarem uma realidade à qual dificilmente teremos acesso como pobres mortais. E o Small e tantos outros blogs de amigas “não-ricas” kkkkk vendem uma realidade tão mais próxima da maioria das mulheres, que acabam crescendo a uma velocidade infinitamente inferior aos blogs “ricos”, porque a nossa realidade já é familiar logo, menos interessante. A “vida real” não é um must-have."
Hoje lendo sobre "A dolorosa e lenta morte do street style" [este artigo] fui direcionada para um documentário chamado Take My Picture, onde Tim Blanks, jornalista de moda, diz que as pessoas amam glamour, especialmente nos tempos difíceis e de recessão (sobre o início do street fashion, na década de 1990). E o fato de Hollywood não estar mais fazendo filmes glamourosos, não estar focando em mostrar qualidade de vida estrelada, deu espaço para que a moda tomasse esse lugar e aparecesse como um incrível escape à realidade.

Olha que interessante: a visão intuitiva da Carol se confirmando com a visão jornalística de Tim Blanks: não importa a década, não importa a idade, somos todos encantados com o brilho da riqueza e da elegância, com algo diferente do habitual de nosso cotidiano.


Será por isso que consumimos tanta moda? Com a ilusão de nos tornarmos um pouco Mira Miroslava? (foto acima: Getty Images)

Sim, atualmente a fuga da realidade está mesmo claramente ligada à moda. Por isso há tanta ênfase em marcas de renome. A gente até compra na C&A, mas tem que ser da coleção Stella McCartney. Ou na Riachuelo, desde que seja Versace.

E há marcas que estão se firmando usando essa nossa fraqueza. Vide Isolda. A nova coleção chegou com preços que quase batem a casa dos 4 mil Reais. São peças bonitas? São. Tem material para custar isso? De jeito nenhum! Mas a camarotização da moda exige que o custo seja alto, para que essa marca seja vista como objeto de desejo e não somente como mais uma roupa boa no guarda-roupa. [Isolda não é a única, idem com Bo.Bô, Lolitta, Cris Barros, Paula Raia, etc.].

Se você segue moda, muito provavelmente tem vontade de consumir novidades a cada nova estação. E os itens dispendiosos são os que mais nos encantam. Porque dão a sensação de exclusividade, de não sermos mais tão "comuns". Palavra de blogueira que tem um armário cheio de bolsas italianas, mesmo quando praticamente não sai de casa...

Se fôssemos mais racionais dificilmente estaríamos comprometendo uma fração tão grande do nosso contra-cheque com moda. Mas quem resiste a um novo sapato?

Caso o artigo The Meteoric Rise and Painfully Slow Death of Street Style citado acima efetivamente estiver correto, e os blogs que cobriam street fashion estiverem mesmo acabando, talvez no futuro não tenhamos mais tanta necessidade de nos firmar via roupas e acessórios.

Mas a quem estou enganando? Por enquanto a moda é o que nos faz sair do nosso mundinho e vislumbrar, mesmo que por poucos momentos, o que seria um vida glamourosa. E como já dito pela Carol, a nossa realidade é familiar, logo, menos interessante. E quem quer se sentir sempre menos interessante?
Então dá-lhe blog da Thássia e fotos de Olivia Palermo. Quem sabe um dia compramos a coisa certa e acordamos iguais a elas?
#ironiamodeon

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