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Se eu fosse eu


Começo roubando o título do texto de Clarice Lispector (sim, é dela mesmo, não é algum erro ao estilo Facebook) para pensar sobre a vida.

Se eu fosse eu, o que faria? Porque a vida é tão curta, tão frágil, e no dia a dia nos esquecemos disso.
A fragilidade só é lembrada quando alguém que conhecemos e queremos bem morre de repente. Aí passamos uns dias perplexos com sua finitude. Mas logo esquecemos e voltamos a nos sentir imortais.
Porque o acidente de carro só acontece com o outro. Assim como o sequestro relâmpago ou assalto. E o câncer. "O Outro" é uma entidade que está fora de nós e que absorve tudo que há de mal no mundo.

Outra forma de ver é que a vida é somente uma viagem. Que tal aproveitá-la em sua extensão toda e não só nos shows pirotécnicos? Todos os dias são importantes, não somente o grande evento aguardado.

E a frase que mais fala comigo: Na vida não há ensaio...

E é por isso que me pergunto: se eu fosse eu, o que faria?

Texto original Clarice:

Quando eu não sei onde guardei um papel...

"Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais. "

Clarice Lispector

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