Bela, recatada e do lar


Você já deve estar cansada de ver nas redes sociais durante toda semana um sem número de postagens e artigos com esse título. Para quem ainda não sabe, uma revista semanal publicou um perfil da esposa de Michel Temer intitulado: “Marcela Temer: bela, recatada e do lar”. No perfil essa jovem de 32 anos, casada com um senhor de 75, é descrita como uma mulher que usa vestidos na altura dos joelhos, dedica-se a levar e buscar o filho na escola, frequenta o salão de beleza e o dermatologista. Cursou a faculdade e é bacharel em Direito sem nunca ter exercido a profissão, e consta de seu curriculum vitae um trabalho como recepcionista e a participação em dois concursos de miss no interior de SP.
 
O Facebook foi palco de memes engraçadíssimos, mas a coisa não parou por aí. Também surgiram artigos veementes criticando a vida e as escolhas da sra. Temer, e usando sua imagem como um ingrediente a mais no caótico pequeno mundo da política. (Não uso aqui a palavra Universo porque, dado o grau de grandeza que essa palavra contem em seu significado, seria um pecado usá-la neste contexto.)

É compreensível. A história das mulheres no passar dos séculos é calcada em lutas e mais lutas pelo direito de ser. Não me lembro de ter lido que algum homem tenha sido morto apenas por pertencer ao gênero masculino. Mas centenas ou milhares de mulheres foram queimadas em fogueiras, estupradas, violentadas de diversas maneiras e atacadas no que tem de mais sagrado, o feminino. O show de horrores continua até hoje, com o assédio nos transportes coletivos, os assassinatos por ciúmes de “companheiros” violentos, a desigualdade salarial, a jornada de trabalho que começa e termina de madrugada com a somatória de papeis de trabalhadora, esposa, mãe e responsável por todas as tarefas do lar. E a contínua cobrança pela manutenção da beleza física, do peso, da fidelidade ao homem, quando a eles é dada a autorização para criar barriga e a complacência para a infidelidade.

Mas... todo discurso fanático me assusta. Para mim a vida dessa moça é completamente destituída de qualquer atrativo, não gostaria de estar na sua pele a despeito de todas as mordomias que deve usufruir. Mas cabe questionar se acaso ela gostaria de estar na minha pele, ou na sua; talvez nossas vidas também não sejam atrativas para ela, talvez ela esteja satisfeita com suas escolhas, ou não, mas esse problema não nos pertence.

O que me pertence é a necessidade de conscientização de que o cenário muda mas a retórica talvez permaneça a mesma, ou quase isso. Sempre há um grupo dominante disposto a ditar regras, um modismo até, que enaltece determinadas maneiras de estar no mundo em detrimento de outras. Marcela Temer não é meu modelo de mulher feliz, e nem deveria ser. Eu tenho que buscar o meu próprio modelo e esse não está pronto, não está disponível para consumo em nenhuma prateleira de supermercado; esse eu tenho que desenhar e retocar todos os dias, com disposição e alma.
Se temos um canteiro no nosso quintal para cuidar, por que haveremos de nos esgueirar no muro para olhar como o vizinho cuida do dele? Não lhes parece non sense

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.




Comentários

  1. Pois é, Ana, o importante mesmo é termos a possibilidade de escolher, não é?

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  2. Genial esse texto. Julgar é um comportamento automático.
    Perceber que não precisamos nos limitar a nenhum tipo de molde exige ponderação e espírito crítico.

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