Metamorfose ambulante


Esse é o nome de uma das músicas de Raul Seixas mais tocada quando eu estava na adolescência, e certamente minha preferida. Vira e mexe ainda a ouço e seu tom desafiador continua a me seduzir.

Acho curioso este mundo no qual vivemos, onde tudo muda quase que à velocidade da luz, novas tecnologias invadem o mercado constantemente e o novo vira ultrapassado num piscar de olhos. Mesmo assim mantemos um ranço das certezas definitivas.

Não é raro ouvirmos ou mesmo afirmarmos coisas do tipo: eu sou assim, este é o meu jeito; eu adoro isto e odeio aquilo; fulano, ah... fulano é e sempre foi de tal jeito (e o descrevemos profetizando que ele continuará dessa forma ad eternum).
Estamos muito acostumados a nos definirmos assim como ao mundo que nos cerca, e essas definições parecem nos dar uma referência de que existimos. Temos opiniões formadas a respeito de quase tudo, e elas acabam se transformando em uma parte de nós. Criamos uma estrutura rígida que nos ajuda e muito a realizarmos julgamentos com muita facilidade para dizer, alto e bom tom, o que está certo e o que está errado, o que serve e o que não serve.

Felizmente, na medida em que o tempo vai passando, vou desconstruindo minhas verdades absolutas, e as críticas que eu fazia com um pé nas costas já não saem tão facilmente. Me dou conta que é preciso esvaziar a bagagem interna para poder continuar viajando.

Se eu carrego sempre as mesmas coisas, as mesmas ideias, definições e percepções, como é que vou conseguir continuar aprendendo? Se eu olho sempre a mesma paisagem, como vou descobrir o novo, e manter a criança que mora em mim acordada e encantada com a aventura de viver? O tédio nosso de cada dia é tecido com as repetições que vivenciamos, e a vida fica tão aborrecidamente previsível!

Mudar, transformar-se, metamorfosear. Descobrir, encantar-se, apaixonar-se, brincar, pulsar como a vida e com a vida, sonhar. Acho que é por isso que gosto tanto dessa música; eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo!!

Toca, Raul!

 "Me dou conta que é preciso esvaziar a bagagem interna para poder continuar viajando." 

___________________________________________________________________________________


Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

 

Comentários