Dolce far niente

A doçura de não fazer nada, o prazer em estar ocioso... há quanto tempo você não se permite essa suave indolência? 
 

Essa expressão tão sonora me remete a um tempo que parece estar em “stand by”, esperando ser acionado em meio a tantas atividades e exigências diárias. Estamos condicionados ao movimento e à agitação, de alguma maneira somos induzidos a acreditar que quanto mais ocupados estivermos, mais sentido nossas vidas ganham. Como se o ocupar-se compulsivamente fosse uma medida que nos dá a dimensão do engajamento com a vida, do grau de importância que temos diante do mundo, do tamanho de nossa utilidade e produtividade... mas será que de fato é assim?

Quando meu filho caçula era pequeno, ele quis a todo custo ter um hamster. A ideia me apavorava, não simpatizo com roedores, principalmente dentro de casa. Porém, diante de tanta insistência acabei por ceder, não queria desempenhar o papel da bruxa má que não se sensibiliza frente ao pedido de uma criança. E eis que um belo dia (para mim não tão belo) chega o hamster dentro da sua gaiola mega moderna, de acrílico colorido e com um “puxadinho” onde ficava a famosa roda.

Pois bem, eu não tenho a menor ideia de como esse bichinho comportava-se durante o dia, uma vez que eu mal parava em casa, mas à noite ele corria dentro daquela roda obstinadamente. De qualquer canto da casa era possível ouvir o barulho da roda girando, o que me incomodava, e muito.
 [Foto by AnimalPetFans]

Em uma noite de sono difícil me levantei e fiquei observando-o e, de repente, caiu uma ficha; não é que as vezes eu me parecia com ele?? Para ser bem honesta devo dizer que por um momento achei que eu e toda a humanidade ficávamos frequentemente parecidos com ele, correndo em círculos, apressadamente, obcecadamente, para chegar ao final do dia (no nosso caso, no dele era ao final da noite) exaustos, porém dignificados pelo sacrifício de cada jornada!! Lembrei dos tempos da faculdade, dos ratinhos que condicionávamos para atestar a teoria de Skinner; acaso não somos nós criaturas que encontram-se extremamente condicionadas? E esse condicionamento não nos leva ao excesso de afazeres?

Desaprendemos um montão de coisas importantes como respirar, experimentar o silêncio e o dolce far niente. Quando nos entregamos a esse ócio surge uma trilha interessante que pode nos levar ao encontro da nossa essência; essa essência representa quem realmente somos e, portanto, o lugar onde pulsa a vida.
Experimente separar um momento do dia ou da semana e dedique-se a não fazer nada... tenho certeza que você irá se surpreender!!

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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