O imponderável


Há semanas que, quando terminam, dá vontade de comemorar por temos sobrevivido físico, emocional e mentalmente!! Claro que há nisso um exagero, mas um pouquinho de drama às vezes é permitido, desde que seja leve e acompanhado de bom humor. Sempre nos imaginamos pilotando nossas vidas, no comando e no controle, e a rotina é corresponsável por esse devaneio. Lembram-se da musica “Cotidiano” de Chico Buarque?
Todo dia ela faz tudo sempre igual
me sacode às seis horas da manhã,
me sorri um sorriso pontual
e me beija com a boca de hortelã.

Pois é, se por um lado a rotina sugere uma certa dose de tédio, uma repetição, por outro ela está aí para insinuar que está tudo ok, que a vida segue dentro da ordem estabelecida e conhecida, que a ansiedade e a angústia podem tirar um cochilo, afinal, está tudo sob controle, já sabemos o que vai acontecer e como vamos agir dentro disso. Só... que não!

Uma rajada de vento muda a paisagem e nos coloca de frente ao imponderável, ao que não estava previsto, à sensação de que perdemos o freio na descida, à ligeira desconfiança de que passamos de protagonista a coadjuvante na história... As emoções adormecidas dão sinal de vida, vem a inquietação acompanhada de algum hábito esquisito: ou comemos demais ou comemos de menos, ou dormimos muito ou perdemos o sono, ou ficamos acelerados ou mal conseguimos pensar, e nessa gangorra de sobe e desce a sensação é que tem pouco ar para muita necessidade de respiração.

E por que isso acontece? Por termos perdido o controle sobre a vida?
Não, acho que não, o que perdemos é a fantasia do controle, controle esse que não tivemos, não temos, não teremos. O inesperado traz a oportunidade de aprendermos essa lição, ele escancara o fato de que navegamos em águas profundas e pouco conhecidas, de que não existe GPS capaz de traçar a rota daqui para lá, exatamente para onde determinamos chegar.

Isso parece assustador? Traz um sentimento de impotência? 
Bem, essa não é a única maneira de lidar com essa constatação, podemos encontrar uma melhor. A de que existe uma bússola existencial dentro de cada um de nós, a intuição, que pode nos apontar a direção a seguir no meio da tempestade dos eventos. A percepção de que temos um eixo que precisa ser cultivado, trabalhado, priorizado, para que possamos ser o ponto interno e estável da roda que gira. De fato não temos domínio sobre os acontecimentos, talvez porque estejamos longe ainda de ter domínio sobre nós mesmos. 
Viver o aqui e o agora, usufruir de cada momento, manter-se no presente e encontrar a alegria nas pequenas bênçãos diárias pode ser um bom caminho para construirmos esse eixo interno que nos ajudará quando soprarem ventos mais fortes que possam nos desviar do caminho que havíamos traçado.

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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