Luto, perdas e afins


Quando pensamos na palavra luto imediatamente associamos a alguma perda significativa, e assim é; luto é uma expressão usada para denominar o processo de vivência e elaboração de emoções decorrentes de alguma perda. Perda nos remete à morte de uma pessoa amada, a separação em uma relação amorosa, demissão de um emprego, um abalo financeiro e por aí vai, e tudo isso é verdadeiro e procede. Mas há um tipo de sentimento de perda sutil e muitas vezes inconsciente, que não está necessariamente atrelado a um evento externo, e que diz respeito à perda da pessoa que costumávamos ser e já não somos mais.
A vida acontece através de ciclos e é ao final de um e começo de outro que geralmente essa sensação de estranhamento nos assola: a perda da infância com a entrada da adolescência, a perda da adolescência com a chegada da vida adulta, a perda da juventude a partir da entrada na maturidade, a chegada da velhice que nos coloca na reta final de encontro com a inevitabilidade da morte. Esses ciclos são como as estações do ano, representam a manifestação da vida seguindo seu fluxo, e a oportunidade de nos transformarmos e aprendermos nuances de nós mesmos que até então estavam adormecidas, mas nem sempre isso é fácil! Na sinceridade, via de regra, não é!
 um processo de luto subjacente a cada mudança, e todo o ganho que dela pode advir é proporcional à nossa capacidade interna de elaborar esse luto, que não está vinculado à morte, mas sim ao desapego. Fossem as árvores apegadas às suas folhas e forma, começariam a morrer no outono e finalizariam no inverno; mas as árvores não morrem, apenas se recolhem de sua exuberância e aceitam a nudez dos galhos mais expostos, reúnem forças para voltar a brotar na primavera. 
Quanto mais vivemos mais acumulamos experiências e estas desenham um novo contorno em nós, assim como os ventos e as chuvas esculpem formas diferentes nas antigas rochas. Não somos mais quem éramos no passado e provavelmente no futuro não seremos quem somos agora, a impermanência é a regra. Mudamos a aparência física, a leitura do mundo, as necessidades e aspirações, a maneira como nos relacionamos, e as vezes até o paladar, o olfato, o tato... e ora nos sentimos apaziguados pelas mudanças, ora sentimos saudades de nós mesmos.
Tudo que está vivo se transforma e há que se trabalhar o desapego para enfrentar com serenidade as mudanças; cada ciclo, assim como cada estação do ano, tem seu ônus e seu encantamento.
 

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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