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Sobre a possibilidade de olhar


Há um vídeo produzido pela Amnistia Internacional da Polônia e uma agência de publicidade que mostra um experimento feito entre refugiados vindos da Síria e Somália com europeus de diversos países. Esse experimento tem por base uma teoria desenvolvida pelo psicólogo americano Arthur Aron nos anos noventa. Ele postula que um contato direto feito por duas pessoas durante quatro minutos, olhos nos olhos, cria uma aproximação que nenhuma outra situação é capaz de criar em curto espaço de tempo. O objetivo da campanha é, evidentemente, diminuir a rejeição e o preconceito em relação aos refugiados e mobilizar os europeus a desenvolverem uma aceitação maior; o vídeo é comovente e, ao assisti-lo, conseguimos dimensionar a emoção das pessoas e o quanto elas realmente interagem.

Se pararmos para observar como a maioria de nós, principalmente os jovens, se relaciona atualmente, esse experimento cai como uma bomba no oásis tecnológico que criamos e consumimos sem o menor constrangimento!! Quero deixar claro que sou inteiramente a favor da tecnologia, acho maravilhoso poder pagar uma conta pelo celular sem ao menos precisar digitar aquele amontoado de números que por vezes são ilegíveis de tão pequenos, ou chamar um carro pelo Uber e não se preocupar se há dinheiro na carteira, ou fazer supermercado e receber as compras sem sair de casa, e tantas outras facilidades.

Novamente a questão não é o avanço tecnológico, mas o uso que se faz dele. Quando isso é usado a favor da qualidade de vida, da diminuição do tempo gasto em tarefas operacionais, quando esse avanço está a nosso serviço, essa ferramenta é fantástica. Porém quando o uso é indiscriminado, compulsivo e inconsequente, o resultado é desastroso, senão agora, mas no futuro próximo.

Isso é muito claro quando, por exemplo, recebo no consultório crianças em idade pré-escolar com comportamentos de isolamento, sociabilidade quase rudimentar, vocabulário pouco desenvolvido, capacidade afetiva restrita. Bastam algumas poucas perguntas para a evidência surgir: são crianças cujo desenvolvimento está afetado pelo uso excessivo de eletrônicos. São crianças cujo sono não é mais embalado por histórias ou cantigas de ninar resignificadas pela voz materna; são crianças que adormecem com o IPad nas mãos, hipnotizadas pelas imagens luminosas e sons metálicos repetitivos.
O mesmo acontece com os adolescentes que passam o dia plugados, se comunicam pelo WhatsApp ou Facetime, jogam on line no computador ou videogame e preferem nitidamente o virtual ao real. Também eles acabam por sofrer de empobrecimento afetivo, isolamento, dificuldades em lidar com situações corriqueiras entre tantos outros sintomas. As relações possuem poderosos atravessadores, prescindem do contato direto, desconhecem o olho no olho.

Acho que estou saudosista... na minha infância e adolescência, mãe tinha cheiro, pai tinha som, amigas tinham olhares cúmplices, brincadeiras tinham diversão e suor e a imaginação era alimentada diariamente pela possibilidade de estímulos pouco estruturados. O que contava mesmo eram as relações, o estar próximo, junto, entender o outro só pelo olhar. Hoje mal olhamos... evitamos o contato, desviamos. No aniversário do amigo, se der para mandar parabéns pelo Facebook, tanto melhor, evita-se um telefonema. A nossa capacidade de amar, de gostar, de ter empatia, de compreender definha visivelmente. E depois nos queixamos que o outro (seja ele o companheiro, o filho, o amigo) não nos vê, não nos percebe. Acaso poderia ser diferente? Acaso há entre eu e o outro disposição para olhar?

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.
 

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