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Você já se pegou nublada?

Hoje acordei nublada e senti vontade de escrever sobre isso; esse adjetivo é usado para descrever a condição do tempo, mas por que não usá-lo também para falar sobre a condição emocional?
Da mesma maneira em que há dias que o sol brilha logo cedo e a luminosidade toma conta de tudo, também nós às vezes acordamos com um brilho na alma e no coração. São aqueles dias em que dá vontade de pular logo da cama, tomar uma chuveirada gostosa, preparar um bom café da manhã e partir para a vida com disposição e certeza de que tudo dará certo.
 
Mas nem sempre é assim. Às vezes acordamos chuvosos, as lágrimas aparecem sem necessariamente entendermos porquê, e a tristeza nos toma de assalto. Lembra enchente, se avoluma, invade sem pedir licença e demora a escoar, e assim ficamos mergulhados nela, nos sentindo um pouco náufragos, encharcados de emoções.

Hoje pela manhã havia em mim uma certa indecisão; o despertador tocou e eu não sabia se queria levantar ou voltar a dormir; enrolei um pouco e saí da cama. A chuveirada foi rápida e o hidratante dispensado! A roupa não foi cuidadosamente escolhida e o visual ficou a desejar; no rosto pincelei uma base e olhe lá! Nos olhos um pouco de máscara sem a companhia do delineador. No dejejum um café preto básico, a geleia preferida sequer foi para a mesa...

No carro me dei conta que estava nublada, nem disposta nem derrubada. A tristeza baixava como uma neblina fina entrecortada por alguma esperança de sol. É o jogo de luz e sombra que habita em nós.
O primeiro impulso foi o de exorcizar essa penumbra emocional, afinal sou uma pessoa predisposta à alegria que trabalha arduamente para desenvolver um olhar generoso em relação à vida. Mas depois do ímpeto veio o insight... por que não acolher a tristeza se ela também faz parte de mim?

Nos dias atuais há uma pressão para estarmos felizes o tempo todo. Dispomos de um arsenal de drogas lícitas que nos convidam à alegria permanente como se a alegria fosse um direito e não uma conquista.

Esquecemos que a tristeza é pré-requisito para a compreensão e elaboração de nossos processos internos, e que é a liga que permite que nossos “pedaços” se integrem e desenhem um todo mais completo. Eu não estou me referindo aqui ao processo depressivo que arrasta milhões de pessoas no mundo ao desconsolo, mas sim ao aspecto saudável da tristeza que nos permite crescer, evoluir, compreender, aceitar o que não depende de nós e transformar o que nos incomoda e está ao nosso alcance modificar.

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Aceitar e acolher a si mesmo no que não gostaríamos de reconhecer em nós é condição básica para a aceitação e o acolhimento do outro, é desenvolver o respeito pela condição humana e a resiliência para superarmos a frustração de não termos ainda nos tornado quem sonhamos tanto ser!
                                                 

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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