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A arte da escuta


Tenho notado como andamos todos verborrágicos, falar parece ter se tornado um ato de despejo. É certo que nos dias de hoje, com a duvidosa qualidade de vida que temos, a ansiedade corre solta. Estamos imprimindo tamanha velocidade no ritmo de nossas vidas que nem percebemos quanto tempo passamos estressados e quanta adrenalina é produzida e circula pela corrente sanguínea. Diante de tanta tensão e aceleração surgem os mecanismos compulsivos, como se fossem canais de descarte do excesso que não cabe em nós. Come-se, bebe-se, corre-se, compra-se, fala-se, tudo demais.
Para cada excesso há uma falta, ou seja, tudo que é regido pelo signo da ansiedade desequilibra os pares de opostos, um prato da balança bate no chão enquanto o outro fica pendurado nas alturas. Para os que falam compulsivamente falta a possibilidade da escuta.

E o que é escutar? Bem, talvez seja silenciar o mundo interno, desatrelar-se dos próprios pensamentos, abrir mão das certezas (nem que seja por um momento), desviar o olhar do umbigo e levar o olhar para o outro, para a criatura que está tentando nos comunicar algo. Mas para tudo isso acontecer é preciso estar em paz; não a paz nirvânica, transcendente, dos santos e dos profetas, claro que não! Basta a paz de quem consegue naquele instante ter domínio sobre si mesmo e, portanto, abrir-se para acolher o outro, para tentar compreender a mensagem que está sendo transmitida.

Vamos lá, façamos um mea culpa; quem de nós como mãe, ao ouvir o choro de um filho ligeiramente machucado, não o recebeu de braços abertos e boca cheia de palavras, cuspindo feito metralhadora coisas do tipo: eu não te disse, eu não avisei que não ia dar certo? Olha só como você é teimoso e blá blá blá...? Claro que ficamos invadidas de angústia e o despejo sobre o outro é imediato, sobrepomos a nossa dor à dor alheia.

Quer outro exemplo? Quando alguém chega aflito e começa a nos contar sobre um fato que aconteceu e o atordoou; se de alguma forma isso nos remete a alguma experiência por nós vivida prontamente engatamos na fala, (não na escuta), e vamos desfiando nosso próprio rosário!! Ou quando todos os juízes que carregamos internamente ficam ouriçados ao ouvir alguém falando e rapidamente armamos um tribunal, onde a sentença se apresenta certeira, nem tarda nem falha.
Eu poderia continuar dando outros exemplos de coisas que fazemos e nem nos damos conta, mas aí seria falar demais!! Acho que é por isso que dizem que escutar é uma arte, e como arte não está disponível a todos de forma indiscriminada. Como arte requer um certo silêncio, foco, atenção flutuante, disponibilidade interna, um despojar-se de si mesmo para poder voltar-se para o outro. Escutar é entrar no universo do outro e poder situar-se dentro de seu contexto, e isso absolutamente não significa concordância, mas aceitação do que não vem de nós.

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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