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Além da zona de conforto

Estou um tanto cansada de pertencer a um lugar imaginário denominado ‘média’. Faço parte da classe média, estou na meia idade, minha casa é medianamente confortável, me sinto medianamente feliz, medianamente segura, medianamente produtiva, pertenço a uma família medianamente “normal”, e por aí vai; mas afinal, o que é estar na média? Vamos para os referenciais?


Em tempos de colégio ou faculdade, para passar de ano tínhamos que atingir uma nota média; se você não conseguisse essa média, você ficava em recuperação, e se não recuperasse, reprovava. Não era necessário o esforço para alcançar a nota máxima, bastava que você atingisse o lugar comum onde a maioria dos estudantes encontrava-se, bastava estar onde a maioria estivesse.
Houve um tempo em que eu ingenuamente considerava que a média era um bom patamar a se atingir; hoje, mais crítica, me parece que estar na média tem um sentido de estar na mediocridade. Soa ser o mínimo, viver o mínimo, aventurar-se o mínimo, crescer o mínimo, desenvolver-se o mínimo, mas claro, tudo isso emoldurado pela zona de conforto. Mas poderíamos usar uma outra palavra, um sinônimo para essa zona de conforto; poderíamos dizer que essa vivência mediana acontece em um lugar delimitado por uma cerca.

A cerca é, sem duvida, uma herança cultural que imediata e inconscientemente tomamos como verdade e como normalidade, e raramente temos a curiosidade de ficar na ponta dos pés e espiar que mundo há além da cerca. Porque além dela há a vastidão de espaço e de possibilidades, há o não conhecido e o não descoberto, o não experimentado, o não controlado, e o medo é um dos aliados mais seguros a nos manter confinados nesse pequeno território; o medo é o mobiliário da zona de conforto, ou talvez mais, é o seu revestimento.

Mas há outros. Quando nos encontramos em um momento x de nossas vidas em que o tédio parece que chegou para ficar, em que o tom acinzentado da cerca deixa tudo nublado, um momento onde ficamos tão desacorçoados que temos um ímpeto de esgueirar o olhar para além dela... vem a culpa, e prontamente junta-se ao medo. Aí está feita a confusão, somos nocauteados por essa dupla dinâmica de medo e culpa, que nos imobiliza de tal maneira que prontamente voltamos para o nosso cercadinho, e o que é pior, voltamos para um lugar de onde sequer saímos. E aplacamos a angústia repetindo a nós mesmos a ladainha de nossos avós, de nossos pais, de que não é seguro aventurar-se, de que temos tudo que precisamos onde estamos, de que a vida é assim, de que todos vivem assim, e de novo a história se repete porque somos a voz que faz ecoar a repetição.
Acorda menina, acorda, diz a voz dentro de mim, a voz que mora no meu coração, a voz da mulher sábia que não conhece o cerceamento porque a ele não se submete. Ouça a voz do ser que habita em você, que também te diz: acorda menina, acorda menino, acorda!! O mundo é do tamanho do teu sonho, é tão vasto quanto o teu coração!

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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