Entre mulheres


Na minha experiência clínica com crianças e pré-adolescentes sempre me chamou a atenção a maneira como meninos e meninas se relacionam entre seus iguais. Os meninos tendem a ser mais parceiros entre si, a estarem mais abertos para o grupo sem tanta necessidade de eleger um melhor amigo; a competição é mais direta e explicita e, portanto, mais bem resolvida. Já o universo das meninas tende a mostra-se mais complexo, com relações mais instáveis, permeadas por competições de teor mais subjetivo, por disputas de posse da melhor amiga, de comparações para saber quem tem o cabelo mais liso, quem é a mais esperta, a mais engraçada, a mais popular, a que tira melhor nota e assim por diante.
 
A sensação que tenho é que há uma herança inconsciente que acabamos herdando e que provoca em nós mulheres insegurança em relação a nós mesmas, e uma necessidade de disputarmos um lugar ao sol (ou seja, um lugar no universo masculino) com as nossas “rivais”. Em função disso desde cedo já desenvolvemos aptidões específicas para julgar, condenar, excluir, disputar, nomear, etc., etc.

Esse processo é bastante sofrido porque tendemos a desenvolver uma desconfiança que nos persegue durante um bom período da vida e dificulta nossas relações; só mais tarde, já na maturidade, descobrimos a força do vínculo entre mulheres, a possibilidade regenerativa, curadora que essa amizade e convivência exercem sobre nós. É como se nesse momento nos aproximássemos de nossas ancestrais, das velhas mulheres sábias, curandeiras, benzedeiras, matriarcas, que possuíam uma profunda relação com a terra e a natureza, que cuidavam da manutenção da vida e da família, e exalavam amor, força e poder. É a possibilidade do resgate do feminino sagrado, íntegro, que não exclui o masculino mas o incorpora na dança do yin e yang.

Mas por que estou falando sobre isso? Porque li durante a semana que passou vários artigos sobre o que aconteceu com a Luiza Brunet, que segundo consta foi espancada pelo então companheiro de cinco anos. Li a entrevista dela, a declaração dele e uma enxurrada de comentários. Tudo muito triste porque nada parece fazer sentido; na verdade a violência nunca faz o menor sentido.

Tão pouco faz sentido pensarmos qualquer coisa separadamente, de maneira dissociada. Há neste episódio a constatação do quanto ainda precisamos crescer para conquistarmos a possibilidade de relações íntegras. De um lado a voz de homens e mulheres carregados da herança cultural deste modelo de sociedade, que apontam o dedo para ela, que questionam que tipo de comportamento ela teve para “provocar” a fúria desse companheiro, como se a fúria irracional, a violência sob qualquer forma fossem passíveis de serem justificadas.
Do outro lado, mulheres que carregam a bandeira do feminismo de uma forma muito parecida com que os homens vem carregando a bandeira do machismo, também cheias de fúria, colocando a mulher Luiza como vítima, como se nós mulheres precisássemos continuar ocupando esse lugar na historia. Uma mulher descolada, inteligente, culta, financeiramente bem estabelecida, viajada, enfim, uma mulher que ocupa um lugar no mundo muito diferente das que vivem na periferia das grandes cidades, encarceradas por seus supostos companheiros.
Enquanto insistirmos em colocar um algoz de um lado e uma vitima do outro, distantes ficaremos da possibilidade de compreensão e resolução dos dramas humanos.

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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

 

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