Dia dos Pais


Depois de um intervalo sem escrever para este blog, ainda retomando o ritmo pós férias, decidi sentar e fazer um texto sobre o dia dos pais. Devo confessar que estou tendo certa dificuldade em abordar o tema, afinal esse universo não é tão familiar; sou mulher, mãe, e apenas transito pelo mundo masculino sem a ele pertencer; é sempre mais tranquilo navegar por águas já conhecidas.

Para pegar o fio da meada recorro à figura de meu pai, hoje com seus 94 anos, lúcido para quem já viveu quase um século. Imigrante português, chegou ao Brasil já homem feito, segundo ele vislumbrando possibilidades que não encontrava em seu país de origem naquele momento. Pessoa simples, de família grande com profunda ligação com a terra, veio decidido a construir seu futuro e assim o fez. Capricorniano determinado, teimoso, trabalhador incansável, honesto, correto, traz a marca de um povo que sofreu as consequências indiretas da guerra e a necessidade de sobreviver a todas as suas restrições. Como ele mesmo diz e provou ao longo destes anos nunca teve medo do trabalho, se entregou a ele, construiu para nossa família uma estrutura que nos permitiu usufruir de facilidades e oportunidades que ele mesmo não teve.

É um homem que se identificou com o papel de pai nos modelos daquela época; único provedor da família, dedicou-se ao trabalho tanto quanto minha mãe dedicou-se a cuidar da educação dos filhos e da organização da casa. Não participou de perto das nossas vidas, mas garantiu o sustento, foi o transmissor da lei e da ordem (ah Freud!), nos levava à noite para a cama e ao parque nos finais de semana. Sempre viajávamos nas férias, meu pai dirigia horas e horas por esse Brasil afora, fomos para o Sul, Sudeste, Centro Oeste com ele na direção, firme e seguro. Tenho doces lembranças dessas inúmeras viagens e me sinto suficientemente abastecida como filha e profundamente feliz por ainda usufruir da sua companhia.

A ele rendo minha gratidão e a homenagem pelo dia de hoje, assim como rendo minha homenagem a todos os homens que se dedicam à árdua tarefa de serem pais em um momento onde os papéis não são mais tão definidos. O homem perdeu o lugar de ser o único ou o principal provedor da família e ganhou espaço dentro da organização familiar. Se por um lado divide com a mulher a construção da ascensão profissional, por outro também divide com ela a responsabilidade do cuidado dos filhos e da casa.

Em tempos de constantes mudanças é difícil encontrar um ponto de equilíbrio, descobrir o caminho do meio. Os desafios do pai de hoje são complexos, o velho modelo tem que ser repaginado sem perder seu significado. O homem que hoje abraça a paternidade tem que redescobrir seu lugar, reinventar seu papel. 
Precisa cuidar da carreira sem descuidar da família, ser próximo dos filhos sem perder a autoridade, representar a autoridade sem ser autoritário, ser amigo sem virar “coleguinha”, interditar o que precisa de interdição, aprender a flexibilizar e adaptar-se à rapidez com que os conceitos mudam, discriminar o que é perene do que é passageiro, o que pode ser concedido do que não tem concessão, o que é negociável do que não tem negociação, e tantas outras nuances e detalhes implícitos na relação. A todos esses homens que não se cansam de buscar o ponto de equilíbrio no exercício diário da paternidade, que recebam como presente a presença dos filhos, o reconhecimento afetivo da preciosidade dessa relação, não só no dia de hoje mas no decorrer da vida!
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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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