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Tempo de validade


Nós, consumidores atuais, sabemos que ao comprar qualquer produto, especialmente os perecíveis, é imprescindível checar a data de validade. Há produtos que duram por mais tempo, outros duram menos, mas todos têm um prazo para serem consumidos. Quando esse prazo esgota-se aquele produto perde suas características originais: o biscoito que era crocante torna-se mole, o refrigerante perde o gás, alguns tornam-se extremamente perigosos e colocam em risco nossa saúde, e mesmo peças de vestuário descaracterizam-se, o tecido envelhecido rasga-se com facilidade.

Isso parece óbvio, não é mesmo? Parece, e de fato é; entretanto limitamos essa obviedade aquilo que consumimos e não ao que vivenciamos. Tendemos a não refletir sobre a validade de nossas escolhas e uma vez feitas, via de regra, assim permanecem. Enquanto pessoas, mudamos no decorrer do tempo e temos dificuldade em revalidar o que foi escolhido.
Ao final da adolescência temos que definir o que desejamos fazer pelo resto de nossas vidas, embora estejamos vivendo o auge da nossa imaturidade. Assustados, deslumbrados, ansiosos, desorientados, escolhemos não apenas uma carreira, uma ocupação profissional, mas principalmente um perfil que nos dá uma identidade. Ao concluir a faculdade e ingressar no mercado de trabalho vestimos toda a indumentária do papel que começamos formalmente a interpretar e assim prosseguimos vida afora. Poucos são os que têm consciência para repensar e mudar, se preciso for.

O mesmo acontece com as escolhas amorosas, nos unimos a alguém com quem nos identificamos naquele momento de vida dos dois. Com o passar do tempo amplia-se a vivência do mundo e o auto conhecimento, vamos nos descobrindo e ao outro também. Às vezes crescemos para o mesmo lado, buscamos as mesmas coisas, desenvolvemos valores e objetivos de vida semelhantes e a escolha vai se validando.

Mas nem sempre é assim; a pessoa que um vai se tornando cresce para um lado diferente da pessoa que o outro vai se tornando, a leitura do mundo diverge, o espaço em comum diminui e com ele também diminuem o interesse e o prazer da convivência. Os sinais são claros embora nem sempre sejam levados em conta, a relação se deteriora porque já não comporta mais aquele novo casal. Esse é o momento de compreender e processar o caminho percorrido, traçar novas metas, repensar. Encerrar ciclos faz parte da vida, é processo natural. No outono, as folhas já amareladas e sem vida, caem sem dor, a árvore as libera e permanece nua no inverno, para produzir vida nova na primavera. Como bem colocou Fritz Perls, psicoterapeuta e psiquiatra, consentir na própria morte e renascer não é fácil.
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Texto de Ana Amorim: Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.

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